O romance Os Corumbas de Amando Fontes, foi publicado
em 1933, sendo muito elogiado na época, e até hoje, é considerado como uma das
leituras obrigatórias pelos críticos literários. Não é de admirar tantos
elogios, pois, trata-se de um livro com uma escrita clara e uma história muito
bem formulada. O autor Amando Fontes foi jornalista, advogado e deputado
estadual constituinte em 1946. Filho de um farmacêutico e uma dona de casa ficou
órfão ainda criança e foi criado pelos avós. Passou a infância em Aracaju,
residiu durante a vida no Rio de Janeiro, Salvador e Curitiba.
O seu livro conta a história
da família de Geraldo com sua mulher Josefa e seus filhos Rosenda, Albertina, Pedro, Bela e Caçulinha.
Fugindo da seca da região agreste de Sergipe, eles se mudam para o Vale do
Cotinguiba, região canavieira do estado, mas a pobreza os obriga a se mudar, e Geraldo decide se aventurar na capital
aracajuana, sonhando com uma vida digna e com bons empregos na indústria
têxtil.
Mas a realidade que a
família Corumba encontra é bem diferente do que havia sonhado: eles se mudam
para uma pequena casa, e os salários que recebem mal dão para o sustento de
todos. Começam uma série de infortúnios para a família. Sua filha Rosenda foge com um militar que
posteriormente a abandona, o que a obriga a se prostituir. Já o Pedro, após entrar em contato com ideias
de esquerda, torna-se líder operário e é preso e deportado para o Rio de
Janeiro.
A saúde de Bela piora quando começa a trabalhar na
fábrica e não consegue se recuperar, falecendo após longo sofrimento. A Albertina começa a namorar com o médico
de Bela, foge com ele e depois de
abandonada torna-se prostituta. E Caçulinha,
que havia abandonado os estudos de professora para trabalhar, após perder a
virgindade com um rapaz rico e este não querer casar-se, passa a ser amante de
um homem casado, que a sustentava. Depois de ver sua família destruída, Geraldo e sua esposa decidem sair de
Aracaju e voltar para o interior. Diziam que a mudança para a capital sergipana
tinha sido a responsável pelo fim de sua felicidade.
Apesar de ser uma obra
ficcional, Amando Fontes trata com muita propriedade e realismo as mazelas da
modernização, especialmente em Aracaju, onde praticamente foi o cenário da
história de Os corumbas. Ao contrário de outros autores, que mostram só
o lado bom da modernização, Fontes dá destaque aos oprimidos, aqueles que não
tiveram oportunidade de saborear das mudanças trazidas com o desenvolvimento.
Vemos nas fábricas em
Sergipe – A sergipana e a Têxtil – onde as personagens Albertina e Rosenda eram funcionárias, o outro lado da modernização. As
péssimas condições de trabalho, os salários baixos, as dificuldades que as
mulheres enfrentavam com o assédio sexual e as imposições do patrão, nos
remetem a pensar como era difícil a vida para o pobre em Aracaju. Percebemos
que o discurso modernizador ficou só para aqueles que possuíam as condições, os
abastados de Sergipe.
Além destes pontos, o autor
narra à luta dos movimentos operários em Sergipe, quando o personagem Pedro, filho de Geraldo e Josefa, se
envolve em manifestações operárias e é mandado para o sul. Vemos que mesmo
sendo um livro escrito na década de 30, através de uma história de uma família
pobre que sofre diversos infortúnios e sem educação, florescer a consciência da
luta por melhores condições de trabalho, que já existiam em outras cidades do
Brasil, contrariando o discurso de ordem, conformismo e satisfação coletiva da
população trabalhista.
Através da mudança da
família para Aracaju, percebemos que a capital sergipana representava a
esperança de uma vida melhor e de trabalho. Porém, após a chegada de Geraldo e
Josefa, as mazelas do trabalho nas fábricas foram expostas pelo autor. Nesta
obra, viajamos pelo cotidiano de Aracaju, pelos bairros Aribé e Santo Antônio,
nas festas de São João e Natal, e nos costumes, típicos de cidade pequena.
Portanto, apesar de ser uma
obra ficcional, Os corumbas serve
como meio de denúncia social, pelos relatos das más condições de trabalho dos operários
e nos dá um painel que oportuniza vislumbrar a Aracaju dos anos 30. Assim, não
é de estranhar que seja um livro tão bem comentado pela crítica literária. Certamente,
o leitor desfrutará de bons momentos e vai viajar nos costumes e na cidade de
Aracaju do século XX.
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