quinta-feira, 31 de maio de 2012

O processo de modernização em Aracaju (SE) e Sorocaba (SP) durante as primeiras décadas do século XX e as suas semelhanças


Este texto tem como objetivo discutir as semelhanças existentes entre o processo de modernização da cidade de Sorocaba (SP) e de Aracaju (SE) nas primeiras décadas do século XX. Para tanto, utilizaremos como base o texto do Arnaldo Pinto Júnior, As potencialidades da história local para a produção do conhecimento em sala de aula: o enfoque do município de Sorocaba e os textos do livro CESAD do prof. Dr. Antônio Lindvaldo Sousa sobre a modernização nas primeiras décadas do século XX.
Em todo seu texto, Júnior (2001) trata da importância do estudo da História Cultural para o ensino de História. O autor também discute algumas práticas instituídas no ensino de História no Brasil que reproduzem uma visão tradicional da disciplina. Porém, nosso enfoque neste texto, é perceber as semelhanças entre os processos de modernização entre as duas cidades. Em Sorocaba, a ideia de modernidade estava vinculada na cidade desde 1903 por alguns setores sociais que proclamaram seu avanço através da denominada Manchester Paulista. Ela simbolizava um salto qualitativo na produção econômica na produção econômica da cidade, em suas relações sociais e na importância política e cultural de seus habitantes.
Assim a cidade de Sorocaba deixava de lado seu passado “decadente”, representado pelas feiras de animais e instalava-se unidades do ramo têxtil a partir da década de 1880. As elites econômicas e intelectuais da cidade, seguindo a tendência liberal, evolucionista e progressista começaram a defender seu centro urbano como espaço de prosperidade, em que as mais modernas práticas industriais eram aplicadas para o bem dos habitantes. Mas, este olhar que o autor chama de “neoliberal” sob a sociedade, construiu não só a Manchester Paulista, símbolo da modernização, como também reafirmou a discriminação, o preconceito social e afastou os negros e muitas vezes até o trabalhador nacional.
Em Aracaju, esta modernização, que chegou com as fábricas de tecidos, também trouxe os seus revezes. Este discurso modernizador implantado pela elite, só beneficiou a própria elite. Os pobres e negros, principalmente aqueles que vieram do interior em busca de trabalho na capital “promissora”, sentirem na pele as consequências deste processo modernizador. Aqueles em sua maioria, que trabalhavam nas fábricas de tecidos, não tinham direitos trabalhistas, sofriam as imposições do patrão, e trabalhavam horas por péssimos salários. Percebemos que este discurso modernizador, assim como em Sorocaba, na prática só serviu aos interesses das elites e trouxe consigo seus revezes. 

terça-feira, 29 de maio de 2012

Resenha do livro Os Corumbas de Amando Fontes


O romance Os Corumbas de Amando Fontes, foi publicado em 1933, sendo muito elogiado na época, e até hoje, é considerado como uma das leituras obrigatórias pelos críticos literários. Não é de admirar tantos elogios, pois, trata-se de um livro com uma escrita clara e uma história muito bem formulada. O autor Amando Fontes foi jornalista, advogado e deputado estadual constituinte em 1946. Filho de um farmacêutico e uma dona de casa ficou órfão ainda criança e foi criado pelos avós. Passou a infância em Aracaju, residiu durante a vida no Rio de Janeiro, Salvador e Curitiba.
O seu livro conta a história da família de Geraldo com sua mulher Josefa e seus filhos Rosenda, Albertina, Pedro, Bela e Caçulinha. Fugindo da seca da região agreste de Sergipe, eles se mudam para o Vale do Cotinguiba, região canavieira do estado, mas a pobreza os obriga a se mudar, e Geraldo decide se aventurar na capital aracajuana, sonhando com uma vida digna e com bons empregos na indústria têxtil.
Mas a realidade que a família Corumba encontra é bem diferente do que havia sonhado: eles se mudam para uma pequena casa, e os salários que recebem mal dão para o sustento de todos. Começam uma série de infortúnios para a família. Sua filha Rosenda foge com um militar que posteriormente a abandona, o que a obriga a se prostituir. Já o Pedro, após entrar em contato com ideias de esquerda, torna-se líder operário e é preso e deportado para o Rio de Janeiro.
A saúde de Bela piora quando começa a trabalhar na fábrica e não consegue se recuperar, falecendo após longo sofrimento. A Albertina começa a namorar com o médico de Bela, foge com ele e depois de abandonada torna-se prostituta. E Caçulinha, que havia abandonado os estudos de professora para trabalhar, após perder a virgindade com um rapaz rico e este não querer casar-se, passa a ser amante de um homem casado, que a sustentava. Depois de ver sua família destruída, Geraldo e sua esposa decidem sair de Aracaju e voltar para o interior. Diziam que a mudança para a capital sergipana tinha sido a responsável pelo fim de sua felicidade.
Apesar de ser uma obra ficcional, Amando Fontes trata com muita propriedade e realismo as mazelas da modernização, especialmente em Aracaju, onde praticamente foi o cenário da história de Os corumbas.  Ao contrário de outros autores, que mostram só o lado bom da modernização, Fontes dá destaque aos oprimidos, aqueles que não tiveram oportunidade de saborear das mudanças trazidas com o desenvolvimento.
Vemos nas fábricas em Sergipe – A sergipana e a Têxtil – onde as personagens Albertina e Rosenda eram funcionárias, o outro lado da modernização. As péssimas condições de trabalho, os salários baixos, as dificuldades que as mulheres enfrentavam com o assédio sexual e as imposições do patrão, nos remetem a pensar como era difícil a vida para o pobre em Aracaju. Percebemos que o discurso modernizador ficou só para aqueles que possuíam as condições, os abastados de Sergipe.
Além destes pontos, o autor narra à luta dos movimentos operários em Sergipe, quando o personagem Pedro, filho de Geraldo e Josefa, se envolve em manifestações operárias e é mandado para o sul. Vemos que mesmo sendo um livro escrito na década de 30, através de uma história de uma família pobre que sofre diversos infortúnios e sem educação, florescer a consciência da luta por melhores condições de trabalho, que já existiam em outras cidades do Brasil, contrariando o discurso de ordem, conformismo e satisfação coletiva da população trabalhista.
Através da mudança da família para Aracaju, percebemos que a capital sergipana representava a esperança de uma vida melhor e de trabalho. Porém, após a chegada de Geraldo e Josefa, as mazelas do trabalho nas fábricas foram expostas pelo autor. Nesta obra, viajamos pelo cotidiano de Aracaju, pelos bairros Aribé e Santo Antônio, nas festas de São João e Natal, e nos costumes, típicos de cidade pequena.
Portanto, apesar de ser uma obra ficcional, Os corumbas serve como meio de denúncia social, pelos relatos das más condições de trabalho dos operários e nos dá um painel que oportuniza vislumbrar a Aracaju dos anos 30. Assim, não é de estranhar que seja um livro tão bem comentado pela crítica literária. Certamente, o leitor desfrutará de bons momentos e vai viajar nos costumes e na cidade de Aracaju do século XX.  

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Relatório do I Seminário sobre alimentos e manifestações culturais tradicionais


Foi realizado na Universidade Federal de Sergipe (UFS) de 21-23 de maio de 2012, promovido pelo GRUPAM, grupo de pesquisa ligado ao departamento de Geografia da UFS. Teve por finalidade refletir sobre os desafios que estão sendo vivenciados para a manutenção da produção de diversos alimentos tradicionais e de outras manifestações culturais na contemporaneidade.
O primeiro dia do evento, a mesa foi composta por quatro professores, juntamente com a organizadora do seminário a Profa. Dra. Sônia de Souza Mendonça Menezes, que apresentou o evento e falou sobre o grupo de pesquisa, o GRUPAM. O conferencista foi a Profa. Dra. Ellen Fernsterseifer Woortmann (UNB), que falou sobre o papel da pesquisa e do ensino na valorização dos alimentos, assim como as demais manifestações culturais tradicionais na contemporaneidade. Após a conferência ouve uma apresentação de um grupo de Reisado e depois um coquetel de comidas típicas.
No segundo dia, houve uma mesa redonda coordenada pelo prof. Dr. Antônio Lindvaldo Sousa (DHI/UFS), onde se discutiu o alimento como manifestação cultural e reprodução social e econômica nos territórios. As palestrantes foi Fabiana Thomé da Cruz, engenheira de alimentos; Luzineide Carvalho Dourado, Dra. em Geografia; e a Msc. Maria de Fátima Farias de Lima.
A professora Doutora Luzineide foi a primeira a falar e destacou sobre o território da natureza no semi-árido brasileiro e os alimentos reeditados. E a segunda palestrante, foi a Engenheira de Alimentos e Doutoranda em Desenvolvimento Rural Fabiana Thomé que explanou sobre a valorização dos alimentos tradicionais, dando exemplos de quais seriam estes, como os queijos, os derivados da mandioca e ainda acrescentou também que os alimentos tradicionais são aqueles feitos manualmente, ou seja, produtos artesanais. Mas, tem alguns alimentos que mesmo usando a mecanização não perde o sentido artesanal.
A última palestrante da manhã foi a Msc. Maria de Fátima Farias que apresentou um vídeo sobre o projeto Ceará do qual ela participa, juntamente com uma equipe de nutricionistas, historiadores, engenheiros de alimentos. O objetivo deste projeto é organizar uma exposição formada por fotógrafos, textos assim como integrar o público do centro Dragão do Mar de Arte e Cultura a ações de valorização dos mestres do saber culinário. Este projeto é composto de duas fases: a 1º é exploratória e a 2º de levantamento. Além disso, a palestrante também no falou sobre os desafios da pesquisa de campo. Dentre eles, a dinâmica/complexidade dos processos culinários, a negociação do pesquisados com os próprios gostos e moral.
No terceiro dia, quarta-feira, tivemos um mesa redonda com o tema: As políticas e os movimentos de valorização das manifestações culturais no Brasil. A primeira palestrante foi a  Dra. Maria Augusta Mundim Vargas, que explicou sobre o papel do Estado, que é reconhecer, preservar e proteger,  falou também sobre o papel do geografo e a difícil interpretação das políticas.     
Claudia Vasquez representante do IPHAN fez uma explanação com relação à política do órgão, assim como os mecanismos utilizados para a defesa do bem histórico, seja ele material ou imaterial. Nos mostrou de que forma esse órgão trabalha para garantir a continuidade de bens culturais e,  explicou também a diferença entre o tombamento e o registro. E por ultimo foi à fala de Cênia Sales, Líder do Movimento Sloow Food e a de Rosangela Pezza Cintrão, componente do Sloow Food. Explicou que este consiste em um movimento, uma organização eco-gastronômica internacional, sem fins-lucrativos mantida pelos próprios membros. Por último, foi aberto a participação dos ouvintes, através do debate. 

sábado, 26 de maio de 2012

Relatório de visita a Laranjeiras


Este relatório diz respeito à viagem feita até Laranjeiras no dia 11 de maio do presente ano, com o objetivo de encontrar informações que pudessem dar um suporte para a produção de um vídeo sobre festividades tradicionais em Laranjeiras, que faz parte de um trabalho em conjunto com a turma da disciplina Sergipe II, ministrada pelo prof. Dr. Antônio Lindvaldo Sousa da Universidade Federal de Sergipe. 
Fundada em 1605 e distante apenas 23 km da capital, Laranjeiras é a segunda cidade mais antiga de Sergipe e abriga diversas tradições de nossa cultura. Situada no Vale do Cotinguiba, era um imenso canavial e durante muito tempo a cana-de-açúcar representou seu principal ciclo econômico. Com os engenhos, chegaram os escravos e as igrejas, com suas irmandades e festas. A cidade possui 16 igrejas católicas, e é considerada como o maior polo folclórico do Estado de Sergipe.  
Igreja matriz, Sagrado Coração de Jesus
Logo na chegada, notamos que se constitui em uma cidade histórica, representante das raízes do povo sergipano. Vistamos algumas igrejas, a primeira delas foi a igreja matriz, Sagrado Coração de Jesus, localizada na Rua do Sagrado Coração de Jesus. A seguir fomos à outra igreja, está no alto de uma ladeira e depois de uma considerável subida chegamos a Igreja do Bonfim, que passou por uma grande reforma no século XIX devido a um incêndio que a destruiu parcialmente. Do alto dela é possível ter uma ampla visão da região. Dela também podemos observar a Capela de Bom Jesus dos Navegantes que está localizada na Colina do Bom Jesus, ponto alto da cidade. Também andamos pelas ruas sempre olhando os detalhes dos prédios tombados pelo IPHAN – Instituto do patrimônio Histórico e Artístico Nacional - e por último, visitamos o museu Afro-brasileiro de Sergipe. 
O museu foi fundado em 28 de maio de 1976 e é um espaço dedicado à herança cultural de matriz africana. Evidencia a presença negra no estado, especialmente em Laranjeiras. Como a maioria das festividades que foram analisadas neste trabalho - Os Lambe Sujos, Caboclinhos, as Taieiras e São Gonçalo - são de origem negra, é importante conhecer a presença do negro em Sergipe. E é no ciclo de natal, especialmente na Festa dos Santos Reis, que estas tradições afloram. O museu Afro-brasileiro fala desde a escravidão dos negros - tendo sala dedicada aos instrumentos de tortura - os mais tratos, o papel do negro dentro da casa grande, as religiões, o papel do negro nos engenhos até as representações culturais através de suas festividades e crenças.
Quadro representando Lambe Sujo X
Caboclinhos
Passamos a manhã toda na cidade de Laranjeiras e podemos concluir que foi bem proveitosa. É interessante ver e conhecer um pouco da nossa cultura, principalmente sobre os negros que viviam aqui em Sergipe. Neste sentido, o museu Afro-brasileiro teve um papel relevante, já que foi lá que encontramos mais suportes para o vídeo sobre as manifestações culturais.

sábado, 5 de maio de 2012


Relatório do Seminário "Índios em Sergipe e índios Xokó (hoje)"



Foi realizado pelo Grupo de Pesquisa Culturas, Identidades e Religiosidades (GPCIR), ligado do ao Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe, com coordenação do Prof. Dr. Antônio Lindvaldo Sousa (DHI/UFS). O evento ocorreu nos dias 19 e 20 de Abril de 2012 na UFS no campos de São Cristovão e abordou a temática sobre os índios em Sergipe, especialmente os Xokó, com o objetivo de dar contribuição e continuidade ao trabalho que antropólogos e outros pesquisadores das ciências humanas tem feito. Assim, o seminário apresentou as pesquisas já efetuadas e aquelas em desenvolvimento sobre os índios em Sergipe.
Após a apresentação da comissão organizadora e de uma fala introdutória do prof. Dr. Antônio Lindvaldo, sobre a importância do estudo dos índios em Sergipe para entendermos a nossa História, a prof. Msc. Beatriz Goes Dantas, discorreu sobre o índio em Sergipe e apresentou o capítulo do livro "Textos para História de Sergipe, de sua autoria. A autora é umas das percursoras no estudo do modo de ser índio e umas das referências na área em Sergipe. Em sua apresentação, apesar do pouco tempo, a professora conseguiu chamar nossa atenção para o estudo da temática, abordou informações relevantes e conseguiu distribuir sua fala, utilizando de bastante slides, com mapas e imagens. 
Ela discorreu sobre a percepção dos europeus quando aqui chegaram, a diferenciação, "Tapis x Tapuais",  e a errônea caracterização dos Tupinambás como sendo o único povo indígena que existia em nosso estado. Na verdade, exitem diversidades linguísticas, culturais, um verdadeiro mosaico de povos. Dentre os que habitavam nosso território entre os séculos XVI e XX estão os Aramuru, Boimé, Karapóto, Kaxagó, Kiriri (tapuia), Xokó e Tupinambá. Em sua fala os índios tupinambás tiveram destaque, pois, eles foram predominantes no litoral da costa no território onde hoje é o estado de Sergipe. 
A professora também tratou sobre o encontro do europeu com o índio em Sergipe e os constantes conflitos.Os índios foram usados como mãos de obra de trabalho para extrair o pau-brasil. Além disso, tratou também sobre os projetos coloniais, a busca de riquezas, a primeira tentativa de colonização em 1575 pelos jesuítas, a catequese, as missões, o espaço de cristianização que era a tentativa de transformação dos índios pagãos em cristãos, a segunda tentativa e a definitiva colonização em 1590 que foi o marco da conquista e o desaparecimento dos índios, com a lei de Terras de 1850. 
A segunda apresentação da noite do dia 19, foi a de Pedro Abelardo, "A catequese e a Civilização dos índios no Império", que explicou como foi a catequese e a civilização dos índios durante o Império, o motivo do desaparecimentos dos aldeamentos e o projeto Bonifácio para índios e escravos. A última palestra da noite, foi a de Witney Fernandes que teve como objetivo identificar as reações dos índios de Pacatuba durante o processo de apropriação de suas terras. 
Na segunda noite, dia 20, a primeira palestra foi a de Avelar Araujo Santos Junior com o tema, "O Movimento Indígena e a Atualização de Suas Pautas de Luta" em que nos mostrou através de dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o panorama atual da população indígena brasileira e seus territórios. Assim, segundo os dados mostrados pelo    Avelar Araujo, são 225 povos indígenas que falam cerca de 180 línguas e nos espaços urbanos vivem mais de 315 mil índios, e que apenas 12% do território nacional é habitado por índios. Além disso, ele discorreu sobre o histórico da resistência indígena, a demarcação de terras e o processo de organização do movimento indígena. 
Logo em seguida, a última palestra foi a do ex-cacique Apolônio Xokó. Com a experiência de quem vivenciou e vivencia a luta dos índios da comunidade Xokó pela sobrevivência de sua cultura e pela posse das terras, em um depoimento denso nos contou sobre as dificuldades pela posse das terras, chegando até mesmo a dizer que se colocou em várias situações de risco. Em seu discurso, não dispensou a gratidão que ele e toda comunidade tem pela Universidade Federal e os professores que ajudaram a conseguir suas terras. 
O Seminário, com um todo, foi importante para entendermos a situação dos índios em Sergipe, assim como sua história. Percebemos, que a comunidade indígena dos Xokó, sentem as consequências do processo devastador que foi a colonização para os índios. Além disso, tivemos a oportunidade de conhecer os estudos que foram e ainda estão em desenvolvimento. Espaços assim, sempre são necessários, a fim de que possamos nos inserir nas discussões atuais sobre os índios e nos proporciona entender de que forma eles estão presentes em nossa sociedade.